O caso está relacionado à ludopatia, transtorno associado à dificuldade de controlar o impulso de jogar, mesmo quando a prática provoca prejuízos
Uma moradora de Porto Velho, em Rondônia, perdeu mais de R$ 60 mil em apostas online ao longo de aproximadamente um ano. Para continuar jogando, ela vendeu praticamente todos os móveis da própria casa, incluindo geladeira, camas, guarda-roupa, mesa e aparelhos de ar-condicionado. Em uma das apostas, chegou a arriscar R$ 3 mil, valor equivalente ao salário inteiro, mas perdeu tudo.
A mulher, que preferiu não revelar a identidade, conta que o envolvimento com as plataformas começou de maneira gradual. No início, ela ainda não sabia jogar e foi aprendendo aos poucos. Os primeiros ganhos contribuíram para que continuasse apostando, até que o comportamento se transformou em uma rotina marcada por prejuízos financeiros.
“Quando eu comecei, eu não sabia nem jogar. Foi aos poucos, fui aprendendo, jogando aos pouquinhos. Já faz um ano que eu jogava. E só perco, não ganho nada”, relatou.
Com o passar do tempo, a situação saiu do controle. Mesmo diante das perdas, a moradora continuava apostando na expectativa de conseguir recuperar o dinheiro. Para manter o hábito, comprometeu o salário, deixou de pagar contas essenciais e acumulou empréstimos. Em cerca de um ano, os bens que a família levou muito tempo para adquirir foram vendidos para financiar as apostas.
“Meu pai quase chegou a morrer porque ele tava sem medicamento, sem dinheiro pra comprar”, contou a filha.
A situação começou a mudar quando a filha decidiu intervir. Para interromper o ciclo de apostas, ela retirou o celular da mãe, bloqueou os aplicativos e a levou a um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde a moradora pôde buscar atendimento especializado.
Ludopatia: quando o jogo se transforma em doença
O caso está relacionado à ludopatia, transtorno associado à dificuldade de controlar o impulso de jogar, mesmo quando a prática provoca prejuízos financeiros, familiares e emocionais.
A condição vai além de apostar com frequência ou perder dinheiro. O sinal de alerta aparece quando a pessoa deixa de controlar o comportamento e continua jogando apesar das consequências negativas, comprometendo responsabilidades e relações pessoais.
Segundo o psicólogo Leandro Missiato, do Núcleo de Apoio Psicossocial do Tribunal de Justiça de Rondônia, a perda de controle é um dos fatores que caracterizam o comportamento problemático relacionado aos jogos.
“Uma pessoa perdendo o controle sobre o jogo. Ela passa a ter prejuízo no trabalho, nas suas relações familiares. Ela passa a ter prejuízo no seu próprio corpo, com sua saúde. E esses fatores combinados favorecem o entendimento de que aquela pessoa tem um comportamento problemático com o jogo”, explicou.
O desenvolvimento da dependência pode acontecer gradualmente. O que começa com apostas ocasionais pode evoluir para uma prática frequente, com valores cada vez maiores. Mesmo diante das perdas, a pessoa pode continuar jogando, comprometendo a renda e tentando recuperar o dinheiro que já perdeu.
A moradora afirma que não percebeu imediatamente que havia desenvolvido uma dependência. Ao reconhecer a gravidade da situação, comparou a experiência ao uso de substâncias que provocam dependência.
“A pessoa não percebe que está no vício, então ela precisa de ajuda de familiares. Isso aí é como uma droga: você usa e vai usando, e vai usando, e você não percebe que está drogada”, relatou.
Tratamento e tentativa de recomeço
Depois de interromper as apostas, a mulher iniciou acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Apesar do início do tratamento, as consequências financeiras permanecem. Os cartões de crédito estão comprometidos, há contas atrasadas e as dívidas acumuladas continuam sendo um obstáculo para a reorganização da vida familiar.
Além da perda de dinheiro e dos bens domésticos, a experiência deixou marcas na rotina da moradora e das pessoas próximas. O episódio demonstra como a dependência em jogos pode ultrapassar o orçamento individual e afetar diretamente as condições de vida de toda a família.
Ao falar sobre a situação atual, a mulher reconhece que precisa reconstruir a própria vida depois dos prejuízos provocados pelas apostas.
“Minha consequência atual é não ter dinheiro. Estou começando do zero”, afirmou.
G1


