As regiões áridas e semiáridas podem ocupar mais de 40% das terras do planeta até o fim do século, segundo um estudo publicado em 1º de setembro na revista científica Environmental Research Letters. A projeção indica que a expansão continuará ao longo das próximas décadas, embora em ritmo menor do que algumas estimativas anteriores sugeriam.
A pesquisa analisou como as áreas secas se distribuíram entre 1960 e 2023 e projetou as mudanças até 2100, considerando diferentes cenários de emissões de gases de efeito estufa. No período de referência, entre 1994 e 2023, as regiões classificadas como secas ocupavam cerca de 38,58% da superfície terrestre global.
Os cientistas consideraram como áreas secas as regiões onde a disponibilidade de água é limitada em relação à quantidade que poderia retornar à atmosfera pela evaporação do solo e pela transpiração das plantas.
A análise mostrou que, entre 1960 e 2023, a extensão global dessas áreas aumentou, em média, cerca de 39,1 mil quilômetros quadrados por ano, apesar das oscilações registradas ao longo do período.
Áreas secas podem superar 40% das terras
Para estimar o futuro, os pesquisadores analisaram diferentes cenários de emissões e calcularam que as áreas secas poderão representar entre 39,31% e 40,28% das terras do planeta no período de 2071 a 2100. No cenário de maiores emissões, o percentual chega a 40,28%, um crescimento equivalente a cerca de 2,37 milhões de quilômetros quadrados em comparação com o período de referência.
A projeção não significa que 40% das terras atualmente úmidas se tornarão áridas, mas que a participação total das regiões classificadas como secas poderá ultrapassar quatro décimos da superfície terrestre. O avanço também não ocorrerá de maneira uniforme, já que algumas regiões tendem a ficar mais secas, enquanto outras podem apresentar aumento da umidade.
Entre os locais com maior tendência de secamento aparecem a Austrália, o Brasil e o norte da África. A Austrália deve concentrar as mudanças mais pronunciadas, seguida pelo território brasileiro, enquanto partes do noroeste da China podem manter uma tendência de aumento da umidade.
CO₂ também interfere na perda de água pelas plantas
Um dos diferenciais do trabalho foi incorporar às projeções o efeito do aumento da concentração de dióxido de carbono, o CO₂, sobre a evapotranspiração, processo pelo qual a água retorna à atmosfera a partir do solo e das plantas.
Quando há mais CO₂ disponível, as plantas podem reduzir a abertura dos estômatos, pequenas estruturas das folhas utilizadas nas trocas gasosas, diminuindo a perda de água pela transpiração.
Ao incluir o mecanismo nos cálculos, os pesquisadores chegaram a uma expansão das áreas secas menor do que a apontada por métodos que não consideram a resposta fisiológica da vegetação ao aumento do CO₂.
A diferença é relevante porque projeções anteriores chegaram a indicar que as regiões secas poderiam ocupar até 56% das terras do planeta até 2100. O novo estudo não elimina o avanço da aridez, mas sugere uma expansão global mais moderada e, ao mesmo tempo, reforça que as mudanças regionais podem ser expressivas.
Os autores ressaltam que os resultados representam uma avaliação baseada principalmente nas condições climáticas e, portanto, não determinam exatamente como cada ecossistema ou a disponibilidade de água responderá nas próximas décadas.
Fatores como o uso da terra, a retirada de água subterrânea, a irrigação, as mudanças na vegetação e outras formas de utilização dos recursos hídricos não foram incorporados de maneira direta ao modelo.
Por isso, os pesquisadores defendem que futuras avaliações combinem as projeções climáticas com informações sobre o uso da terra e os recursos hídricos, principalmente nas regiões apontadas como potenciais focos de secamento.
Metrópoles


