A percepção de que as mulheres estão mais expostas à violência é praticamente unânime no Brasil. Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (31) pelos institutos Update e Fogo Cruzado mostra que 92% dos brasileiros acreditam que elas enfrentam riscos que os homens não correm.
Além disso, 83% consideram alta ou muito alta a gravidade da violência contra a mulher na cidade onde vivem.
O levantamento, realizado com 2 mil pessoas em todas as regiões do país, também mostra que, embora homens e mulheres relatem níveis semelhantes de insegurança, elas convivem com medos específicos. As entrevistadas afirmam temer mais a violência doméstica e o abuso sexual e relatam, em maior proporção, episódios de assédio e de violência física ou psicológica.
Para Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update, o reconhecimento da maior vulnerabilidade feminina não chega a surpreender. O que chama a atenção, segundo ela, é a dimensão do consenso em torno do tema.
“Assédio, violência doméstica, abuso sexual e restrições à circulação fazem parte da experiência cotidiana de grande parte da população, vividas diretamente pelas mulheres ou observadas por familiares, amigos e colegas. A sociedade reconhece esse risco, mas ele ainda ocupa pouco espaço nas estatísticas tradicionais e na formulação das políticas de segurança”, afirma.
Os dados mostram que esse medo produz impactos que vão muito além dos registros policiais. Na etapa qualitativa da pesquisa, mulheres relataram mudar trajetos, evitar determinados horários, deixar de frequentar lugares e até abrir mão de oportunidades de trabalho e estudo quando o deslocamento era considerado perigoso. O transporte público aparece entre os principais locais de insegurança: 39% das mulheres dizem se sentir inseguras nesses espaços, contra 26% dos homens.
Segundo Carol, a violência interfere na vida das mulheres muito antes de um crime aparecer em um boletim de ocorrência. “Há um esforço permanente de antecipar riscos e organizar a própria proteção, com consequências para a liberdade, a renda, a formação, o lazer e a participação na vida pública.
Como boa parte dessas restrições não entra nos indicadores oficiais, o Estado trabalha com um retrato incompleto da insegurança e termina oferecendo respostas igualmente incompletas”, diz.
Outro dado do levantamento chama atenção para a percepção da população sobre as políticas de segurança. Embora 42% dos entrevistados defendam penas mais duras como prioridade para reduzir a violência, apenas 41% acreditam que a polícia efetivamente protege a população e somente 22% percebem melhora na segurança após operações policiais. Ao mesmo tempo, 45% afirmam que investimentos em educação e políticas sociais também ajudam a reduzir a violência.
Na avaliação da diretora do Instituto Update, enfrentar esse cenário exige ampliar a própria ideia de segurança pública. Ela defende políticas voltadas ao transporte seguro, melhoria da iluminação pública, recuperação de espaços abandonados, prevenção e enfrentamento da violência doméstica, educação e fortalecimento das redes comunitárias. Também considera fundamental produzir indicadores capazes de registrar formas de violência que hoje permanecem invisíveis, como o assédio e as restrições à circulação.
“As mulheres também precisam participar da formulação dessas políticas. Ouvi-las apenas como vítimas e deixá-las fora da construção das soluções significa desperdiçar o conhecimento de quem administra esses riscos todos os dias”, conclui.
Para 93% dos entrevistados, a segurança pública será um tema importante nas eleições de 2026, indicando que a violência, e, especialmente, seus impactos sobre a vida das mulheres, deve ocupar espaço central no debate sobre políticas públicas e nas propostas dos candidatos.
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