Quarta-feira, Maio 27, 2026
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“Corredor comercial não pode virar corredor do narcotráfico”, alerta Delegado Camargo

Deputado cobrou que integração com Bolívia e Peru seja acompanhada de plano de segurança pública, fiscalização de fronteira e reforço das forças policiais.

Durante debate sobre rotas internacionais na Rondônia Rural Show, deputado cobrou que integração com Bolívia e Peru seja acompanhada de plano de segurança pública, fiscalização de fronteira e reforço das forças policiais.

O deputado estadual Delegado Camargo participou, durante a 13ª Rondônia Rural Show Internacional, em Ji-Paraná, de uma reunião promovida pela Assembleia Legislativa de Rondônia para discutir novas rotas internacionais de escoamento da produção rondoniense. O encontro reuniu parlamentares, autoridades brasileiras, representantes da Bolívia, lideranças políticas, produtores rurais e empresários interessados na integração logística entre Rondônia, Bolívia e Peru.

A pauta central foi o fortalecimento de corredores comerciais capazes de ampliar o acesso da produção de Rondônia a mercados internacionais, especialmente por meio da ligação com o departamento boliviano do Beni e com portos peruanos no Oceano Pacífico. Durante a reunião, Delegado Camargo reconheceu a importância econômica da proposta, mas fez um alerta direto: o debate sobre desenvolvimento não pode ignorar os riscos à segurança pública.

“Eu gostaria de trazer aos senhores uma reflexão sobre a pauta num viés da segurança binacional. A segurança dos nossos povos, dos bons cidadãos bolivianos, peruanos e brasileiros”, afirmou o deputado.

Camargo lembrou que Rondônia possui uma extensa faixa de fronteira com a Bolívia, formada por áreas de fronteira seca e fluvial, o que exige atenção permanente do poder público. Segundo ele, a integração comercial pode trazer avanços econômicos, culturais e logísticos, mas também pode ser explorada por organizações criminosas caso não haja planejamento preventivo.

“Eu não tenho dúvida de que isso irá aumentar a integração dos nossos povos, a integração cultural e comercial. Mas eu quero aqui já deixar registrada a minha preocupação quanto à segurança”, disse.

Com mais de 15 anos de atuação como delegado de Polícia Civil, Camargo afirmou que o estado precisa discutir, desde agora, quais serão as medidas de controle, fiscalização e presença policial nas novas rotas. Para ele, não basta falar em ponte binacional, corredor transoceânico e ampliação do comércio sem tratar, com a mesma prioridade, dos impactos na criminalidade.

“Eu vejo falar em ponte binacional, eu vejo falar em corredor transoceânico, mas não vejo falar em nada de segurança pública. Isso vai influenciar o seu comércio, o seu negócio, a sua vida”, declarou.

O parlamentar alertou que Rondônia já enfrenta problemas relacionados ao tráfico de drogas, roubo de veículos, subtração de caminhonetes, furto de implementos agrícolas e atuação de grupos criminosos em regiões de fronteira. Na avaliação dele, o aumento do fluxo de veículos, cargas e pessoas pode ampliar esses riscos caso não haja uma atuação coordenada entre os governos estadual, federal e os países vizinhos.

“A minha preocupação é que essa rota comercial se torne uma rota do narcotráfico”, afirmou Camargo.

Durante sua fala, o deputado citou que a logística usada para o escoamento de grãos, minérios e madeira também pode ser explorada pelo crime organizado. Ele defendeu que o poder público trate o tema com maturidade antes que o problema avance sobre os municípios, as propriedades rurais e as famílias rondonienses.

“Rondônia tem grande escoamento de grãos, minérios e madeira, ou seja, uma logística em larga escala que hoje serve como fundamento para o escoamento de drogas”, alertou.

Camargo também cobrou respostas concretas sobre a estrutura de segurança prevista para acompanhar os projetos de integração. Entre os pontos levantados, ele questionou se haverá reforço da Polícia Militar, ampliação da Polícia Civil, presença da Polícia Federal, atuação do Exército, alfândega, scanners de fiscalização e postos de controle nas áreas estratégicas.

“Eu participei de umas três ou quatro reuniões e não vi uma pessoa chegar e falar: haverá aqui o posto da Polícia Federal, haverá aqui uma alfândega, haverá aqui scanners para escanear o que está passando, haverá aqui o aumento da Polícia Militar ou a Polícia Civil será aumentada”, criticou.

O deputado também afirmou que já buscou informações junto a órgãos de segurança sobre a inclusão dessas instituições no planejamento das rotas internacionais. Segundo ele, a ausência de participação direta das forças policiais nas discussões preocupa, principalmente diante da dimensão do projeto e dos riscos envolvidos.

“É inconcebível que, num projeto dessa envergadura, ninguém tenha a maturidade do governo, tanto federal quanto estadual, de se debruçar e chamar os principais atores”, afirmou.

Para Camargo, o estado precisa agir antes que a abertura de novas rotas fortaleça o tráfico de drogas, o roubo de veículos e a atuação de facções criminosas. Ele também mencionou a vulnerabilidade de municípios pequenos, que muitas vezes não contam com efetivo suficiente para enfrentar ações criminosas de maior impacto.

“Nós vivemos um período em que temos o novo cangaço. São cidades pequenas, sem efetivo, onde um grupo de criminosos chega, rende a Polícia Militar, muitas vezes não tem nem delegacia, e saqueia os bancos”, destacou.

Na avaliação do parlamentar, o desenvolvimento econômico é importante, mas não pode ser construído sem proteção à população. Ele defendeu que a segurança pública seja tratada como parte essencial do projeto, e não como assunto secundário.

“Dinheiro vale uma vida? Para mim, não”, afirmou.

Ao final de sua participação, Delegado Camargo reforçou que não é contra a integração internacional, mas defende que o avanço comercial venha acompanhado de responsabilidade, planejamento e presença efetiva do Estado. Para ele, Rondônia tem uma oportunidade estratégica de ampliar sua competitividade, mas precisa evitar que um projeto criado para impulsionar a economia acabe abrindo caminho para o crime organizado.

“É um bom projeto, maravilhoso. Mas a gente corre um sério risco de sair de um grande corredor comercial para um grande corredor do narcotráfico”, alertou.

A fala de Delegado Camargo colocou a segurança pública no centro de uma discussão que, até então, vinha sendo tratada principalmente sob a ótica econômica e logística. Ao cobrar planejamento antes da execução das novas rotas, o deputado defendeu que Rondônia avance na integração internacional sem deixar desprotegidas as famílias, os produtores rurais, os comerciantes e os municípios que vivem na linha de frente da fronteira.

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