Gasolina em Porto Velho: revenda é a mais cara, mesmo com custo de distribuição semelhante ao do interior

Dados revelam que revenda na capital foi a única registrada com valor acima de 7 reais; especialista fala em preço artificial

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Quando a Petrobras anunciou uma redução de 14 centavos no preço da gasolina, o consumidor de Porto Velho esperou um alívio no bolso. Mas os dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram uma realidade bem diferente: em fevereiro, um mês após o corte na refinaria, o preço na bomba da capital se manteve em um patamar que chega a ser superior ao de cidades do interior.

Mas o preço da gasolina não depende só da estatal. Custos como frete, mistura com etanol, cobrança de impostos e a margem de lucro das distribuidoras, postos e importadoras, e até o valor do diesel – que impacta o frete de todos os combustíveis – incidem sobre o valor final pago pelo consumidor.

O ICMS, que é o imposto estadual, por exemplo, sofreu um aumento no começo de 2026, enquanto os impostos federais permaneceram inalterados. Também houve o aumento do etanol hidratado, que de dezembro de 2025 até meados de fevereiro desse ano, apresentou um salto de mais de 10 centavos. Como consequência disso, o valor do etanol anidro, utilizado para a mistura obrigatória com a gasolina vendida nos postos, também aumentou.

Ainda assim, o que explica o preço da gasolina na bomba ser mais alto na capital? Essa e outras questões você pode conferir nessa reportagem do Portal SGC.

Ano começou com aumento de imposto

O aumento do ICMS no início de 2026. No dia 1º de janeiro, o ICMS, imposto estadual, subiu de R$ 1,47 para R$ 1,57 por litro – um aumento de R$ 0,10 que incidiu diretamente nos postos do Brasil. O valor do imposto é único em todo o território nacional, conforme estabelecido na Lei Complementar 192, de 2022.

    

O valor do imposto já havia aumentado o preço dos combustíveis – a gasolina subiu 10 centavos, e o diesel, 5 centavos – quando a Petrobras anunciou a redução de R$ 0,14 apenas no preço da gasolina “A” (pura) vendida às distribuidoras. O diesel não foi alterado na refinaria.

O preço médio da gasolina “C” – vendida nos postos – refletiu a redução logo na primeira semana em Porto Velho após o anúncio da Petrobras, mas depois retomou o mesmo valor de antes:

Há, porém, um detalhe que pode passar despercebido. Após checagem do Portal SGC sobre o levantamento semanal da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) dos preços dos combustíveis nas capitais brasileiras, foi constatado um aumento na gasolina comum de Porto Velho superior ao valor do ICMS.

Como mostra a tabela, o preço da gasolina saltou de R$ 6,86 para R$ 7,03 – um aumento de R$ 0,17 no valor da gasolina comum, 7 centavos a mais do que os 10 centavos de aumento do ICMS.

O que explicaria estes 7 centavos a mais na gasolina comum em Porto Velho?

O estado define o valor do ICMS; já os tributos federais são fixados pela União e permaneceram inalterados no período – mas quem define o valor na bomba são os postos. O economista Otacílio Moreira de Carvalho, professor da UNIR que já analisou o impacto da alta dos combustíveis na inflação em Rondônia, aponta que as empresas se encontram em um contexto de livre concorrência, onde cada uma decide quanto vai cobrar, buscando apresentar as melhores ofertas para atrair clientes.

 “Cada posto estabelece [o preço] da forma que quiser. Você vai ver que tem posto que acaba aumentando demais, depois ele percebe que perdeu clientes por que tem outro posto que aumentou menos, daí ele reduz. Se ele vê que o mercado se acomodou, que não houve muita interferência, ele pode continuar aumentando. Então o mercado é livre”, explica Otacílio. Com a explicação, o professor aponta que o valor do combustível contém uma margem de cobrança que diz respeito exclusivamente à distribuição e revenda.

Portanto, esses 7 centavos acima do ICMS constatados na aferição de preços da gasolina comum em Porto Velho podem ser atribuídos ao repasse do valor dos impostos e a própria lógica de concorrência no mercado.

Além disso, o preço do etanol hidratado, vendido na bomba, influencia o custo do etanol anidro (usado na mistura com a gasolina), pois ambos vêm da mesma cadeia produtiva.

O valor do Etanol Hidratado havia aumentado 2 centavos em meados de dezembro, dando um salto de até 11 centavos nas primeiras semanas do ano – após o aumento do ICMS – estabilizando a partir da terceira semana de janeiro. Desde então, os valores do Etanol Hidratado vêm se mantendo em um patamar de R$ 5,50 até o último levantamento da ANP.

A alta do etanol hidratado pressiona o custo do etanol anidro (que é derivado do hidratado) e, por consequência, o preço final da gasolina, já que a mistura é obrigatória.

Além dessa alta, o custo de frete e do pedágio também devem ser considerados de acordo com Otacílio:

“Em Rondônia, especificamente em Porto Velho, nós temos também essa questão dos pedágios. A gasolina vem de Manaus pelo rio, mas o etanol vem do Mato Grosso pela BR-364. Por isso, o combustível acaba ficando mais caro aqui em Rondônia por conta disso.”.

Por fim, o aumento de 5 centavos do diesel pelo ICMS ocorrido no início do ano pode ter pressionado o valor do transporte do etanol.

O economista pondera, no entanto, que outros custos incidem sobre os postos no início do ano, como o reajuste do salário mínimo e despesas com mão de obra – fatores que também pressionam o preço final. Ainda assim, para Otacílio, esses aumentos não explicam integralmente o patamar observado em Porto Velho.

“Lembrando, estamos no início do ano, teve um aumento no valor do salário mínimo, esse valor também é repassado. Lembrando, o comércio tem uma pauta de salário diferenciado do salário mínimo, é um pouquinho maior, então isso também é um outro item repassado (…) cada posto tem sua estrutura de custo. Tem posto que consegue comprar mais de 300 mil litros, tem desconto maior. Tem posto que não consegue comprar 100 mil litros, compra a preço cheio e acaba vendendo mais caro (…)”, explica.

Aumento das margens de lucro é a provável causa da redução da Petrobras não chegar no consumidor

Ainda sobre o aumento de 7 centavos acima do ICMS no valor da gasolina comum em Porto Velho, o professor Otacílio comenta que a margem bruta de distribuição e revenda praticamente dobrou nos últimos anos, passando de menos de 10% para perto de 20%.

“Há pouco tempo atrás, antes da política de paridade de preço internacional [PPI], essa margem não chegava a 10%. Tinha estado que era 6%, 7%, outro era 9% (…). Hoje, para a maioria dos estados, está perto de 20%. Então, podemos dizer que os postos estão se apropriando um pouco do valor da gasolina (…) principalmente de uns 12 anos para cá, que tem aumentado muito a margem de lucro, o que aponta para uma apropriação por parte dos postos”, explica.

A redução de R$ 0,14 anunciada pela Petrobras no fim de janeiro teve efeito fugaz: na primeira semana após o anúncio, o preço caiu R$ 0,04, mas retornou ao patamar anterior na semana seguinte.

Esse comportamento do valor da gasolina na bomba indica que os postos provavelmente absorveram a redução, impedindo que o benefício chegasse ao consumidor, dentro de um cenário de preços baseado em um patamar rígido de ofertas, e com baixa elasticidade da demanda – ou seja, mesmo com valores elevados, o consumo não se reduz.

Dados do DETRAN-RO confirmam essa realidade: dos mais de 123 mil veículos que utilizam gasolina na capital, apenas 279 (cerca de 0,23%) contam apenas com alguma tecnologia alternativa, como motores elétricos ou GNV.

A tabela mostra que a frota possui em sua maioria veículos que usam gasolina (flex ou exclusivos) e uma quantidade ínfima de alternativas (elétrico/GNV), formando uma demanda que, em seu conjunto, exemplifica o que o professor descreve como “baixa elasticidade de demanda” – quando o consumo de um produto (como a gasolina) não se reduz mesmo quando seu preço aumenta, pois o consumidor depende dele e tem poucas alternativas viáveis.

“Não havendo redução da demanda, os postos mantêm os preços artificialmente mais alto do que deveria” conclui Otacílio, indicando que os preços praticados podem não corresponder aos custos reais de operação, mas a uma estratégia de mercado. “Na prática, o consumidor não tem para onde fugir”, conclui.

Gasolina em Porto Velho: custo igual ao interior, revenda mais cara

A tese de que a margem de lucro dos postos de Porto Velho é a principal responsável pelo preço elevado ganha força quando se comparam os dados com outros municípios de Rondônia.

Uma análise do Portal SGC no Painel Dinâmico da ANP revela que o preço médio de distribuição da gasolina – ou seja, o custo de aquisição pelos postos – é praticamente o mesmo em Porto Velho, Ariquemes, Ji-Paraná, Cacoal e Vilhena, girando em torno de R$ 5,70. No entanto, na hora de repassar esse custo ao consumidor, a capital se destaca: é o único município onde o preço médio da gasolina comum supera os R$ 7,00.

“Se a gasolina sai daqui e vai para os outros municípios, tem o custo do transporte, e agora o do pedágio, não se justificaria o preço da gasolina estar nesses patamares aqui na capital, que inclusive, poderia estar 20 centavos mais baixos”, conclui. 

Posicionamento do setor

A reportagem procurou o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Rondônia (Sindipetro-RO) para comentar os dados e as análises apresentadas. Por meio de sua assessoria, a entidade limitou-se a informar que “não fala sobre preço ao consumidor” , sem detalhar os critérios de formação dos preços praticados pelos postos associados ou comentar as diferenças apontadas pelo economista.

Calil Machado – Portal SGC